"A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos humanos." (Rabindranath Tagore)

 

                                      José Luongo da Silveira

Adoro enigmas e tudo o que desperta antigos medos,
mágicas formas e ocultos sortilégios
que povoam o intervalo de ser e estar consciente.
Algo que denuncia o vazio da existência,
como as antigas criptas cobertas de musgos
e nuas cavidades tumulares
que vertem um tempo que passou.

Notei naquela tumba brancas tíbias
espalhadas sobre a terra nua
e à medida em que o tédio aumentava,
com a voz embargada perguntei:
quem foram essas pessoas,
que sonhos embalaram suas vidas?
por acaso amaram e foram a amadas?

Só o silêncio responde essas perguntas,
enquanto a tarde irrompe com sua aragem fria.
Toda a pergunta está num horizonte aberto,
ou se torna semente acorrentada,
não há formas de confrontá-la, de exorcizá-la,
nenhum grito, nenhuma réplica despertará da tumba
quem dorme inerte sem mais desfechos.

Toda a urgência de uma vida já passou
e o que preciso fazer é cobrir esses despojos,
devolvê-los: “Terra à terra, pó ao pó”,
e depois, seguir meus passos para além daqui
Aqui só há morte sem pudor,
despudoradamente nua,
como a circunstância exige.

Um dia, alguém descobrirá em outra tumba,
tuas quimeras que ao léu foram lançadas,
e ninguém saberá das fogueiras que acendestes,
nem dos rasgos de asas e das noites solitárias.
E perguntará também: quem foi o viajante esquecido
que dorme entre as folhas secas do salgueiro?
Sempre é melhor fazer de conta de que tudo tem sentido,
tudo se encaixa numa lógica aristotélica.

Dá até para sorrir e olhar para trás indiferente,
mesmo porque haverá tempo antes de virar semente,
algo que ainda permite surfar na superfície.
Entre as sombras vagueio cambaleante,
caminho sem saber onde ancorar a espera.

Ó Luz Suave varre os fantasmas,
deixa-me dormir no teu regaço
o doce aconchego das promessas.

José Luongo da Silveira

O sono não veio,
a tarde parou,
o céu se abrumou
e o calor aumentou.

O vento passou,
animou as acácias,
as folhas soltas
acordaram
e bailam no chão.

Uma borboleta
dança no ar
sobre os lírios amarelos
e num instante pousa,
cerrando asas.

A chuva chegou,
uma gota,
outra e mais outra
descem do telhado.

Não estou em mim,
estou no vento
que se move,
na borboleta que se foi
e no som da chuva
que rega os lírios amarelos.

São Francisco de Assis

Louvado seja Deus na natureza,
Mãe gloriosa e bela da Beleza,
E com todas as suas criaturas;
Pelo irmão Sol, o mais bondoso
E glorioso irmão pelas alturas,
O verdadeiro, o belo, que ilumina
Criando a pura glória – a luz do dia!

Louvado seja pelas irmãs Estrelas,
Pela irmã Lua que derrama o luar,
Belas, claras irmãs silenciosas
E luminosas, suspensas no ar.

Louvado seja pela irmã Nuvem que há-de
Dar-nos a fina chuva que consola;
Pelo Céu azul e pela Tempestade;
Pelo irmão Vento, que rebrama e rola.

Louvado seja pela preciosa,
Bondosa água, irmã útil e bela,
Que brota humilde.
É casta e se oferece
A todo o que apetece o gosto dela.

Louvado seja pela maravilha
Que rebrilha no Lume, o irmão ardente,
Tão forte, que amanhece a noite escura,
E tão amável, que alumia a gente.

Louvado seja pelos seus amores,
Pela irmão madre Terra e seus primores,
Que nos ampara e oferta seus produtos,
Árvores, frutos, ervas, pão e flores.

Louvado seja pelos que passaram
Os tormentos do mundo dolorosos,
E, contentes, sorrindo, perdoaram;
Pela alegria dos que trabalham,
Pela morte serena dos bondosos.

Louvado seja Deus na mãe querida,
A natureza que fez bela e forte:
Louvado seja pela irmã Vida
Louvado seja pela irmã Morte.

José Luongo da Silveira,TSSF.  (The Third Order, Province of the Americas The Society of Saint Francis  -The Anglican Communion)

 

 

 

 

John Henry Newman

Conduze-me, Doce Luz,
através das trevas que me cercam,
conduze-me sempre mais longe!
A noite é como uma tinta negra,
estou longe de tua casa,
conduze-me sempre mais longe!
Ampara meus passos,
não peço para ver desde agora
aquilo que devo ver mais adiante.
Basta, para mim, um único passo de cada vez.

Mas nem sempre fui assim,
nem sempre rezei para que me conduzisses,
cada vez mais longe…
gostava de escolher, eu mesmo,
o meu caminho…
Mas, agora, conduze-me tu,
sempre mais longe…

Fascinavam-me os dias de glória
e, apesar do medo,
o orgulho dominava minha vida.
Não te lembres mais dos anos já escoados…
durante tanto tempo teu poder me abençoou;
certamente ele saberá conduzir-me ainda,
cada vez mais longe…
pelo deserto, pelo pântano,
sobre as rochas abruptas,
pela força das torrentes,
até que a noite tenha ido embora
e que venha a manhã sorridente.

Que esses rostos de anjo, que amei outrora,
e que perdi de vista durante muito tempo,
voltem novamente a brilhar.

Conduze-me, Doce Luz,
conduze-me Tu,
sempre mais longe…

Deusa das águas

Hei de me casar
com esta menina,
quando ela passa
ilumina a praça
com seu andar.
 
Até o vento
que se disfarça
lhe traz segredos,
sussurra manso
nas suas faces
quantos gracejos.
 
Menina moça,
leva consigo
este meu olhar,
porque seu jeito
é a mesma a causa
do meu penar.
 
O seu sorriso
apagam todos
os meu cansaços.
Fico pensando
como seria
tê-la em meus braços.
 
Vestido rosa
do meu agrado,
e os cabelos
oscilando ao vento,
desarrumados,
esvoaçados.
 
Se chama IARA,
quero-lhe atenta
aos meus desejos,
quando passa
se desfaz
num balanço
que me enlaça.
 
Sobre o que sinto
não sei se calo
ou se falo,
se falo (ou não)
ela me desperta
e só ao sabê-lo
eu me desfaço
ao seu regalo
 
sossega morena,
espera confiante
que a noite é pequena
e eu não lhe falho,
um dia em seu peito
encontro agasalho.
 
Sossega pequena,
seu carinho é abrigo,
embala seus sonhos
e serei todo ouvidos,
que na viagem da vida
meu destino é consigo.

José Luongo da Silveira

Não precisas querer nada,
ela te diz o que deve ser visto,
tinge o horizonte de esperança
e ri com a tua surpresa,
mas depois disfarça
como se ficasse envergonhada.
 

A tarde é ainda donzela,
vive encontrando cores
como se as semeasse
por cima dos montes,
dos vales em profusão
e recolhendo-as,
voltasse a pintar
com tons mais suaves,
formas delicadas que a noite recolhe.

Amo a tarde que se faz menina
para ser admirada
e brinca com meu coração enamorado,
namorando-o.
Bebo em suas mãos
o brilho suave do seu olhar.

A tarde veste verde.

 
 
José Luongo da Silveira
 Onde guardarei os meus segredos,
 aqueles que são inconfessáveis?
 Já que os baús antigos não são seguros,
 todos conhecem os seus truques,
 e além disso, nenhum cofre guarda segredos.
 

 Se os escondo debaixo da terra,
 a terra consome e destrói tudo,
 como fez com todos os homens
 que chegaram antes de mim.

 E se oculto entre as folhas de um livro,
 numa linguagem cifrada? também não,
 os livros costumam dizer tudo,
 apregoam os segredos nos telhados.

 Quem sabe no fundo do mar?
 mas o mar é inconstante
 e devolve sempre o que não lhe pertence,
 talvez um dia, numa praia qualquer
 aportem os meus segredos,
 escancarados, desavergonhados.

 Os meus segredos,
 os guardarei em mim mesmo,
 enterrados na própria carne
 eles ficam mais seguros
 e quando eu morrer,
 eles se evaporam,
 viram fumaça no ar.

José Luongo da Silveira

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