"A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos humanos." (Rabindranath Tagore)

Na quase manhã
há algazarra de pássaros
em revoadas
…………

A rosa acorda
bebe o sereno da noite
se abre úmida
………….

cada olhar é único
a vida não se repete
o olhar a completa
…………..

A gota de água
no fio de arame hesita
baila na luz
……………

A arte de morrer
a gota d’ água sabe
vive sem apegos
…………….

Chegada a velhice
vão-se os prazeres
fica o condor
…………….

Diz Martín Fierro
que o diabo é perigoso
por estar velho
…………….

A chuva canta
na vidraça da janela
lágrimas nos olhos
……………..

Por um instante
acaricia meus cabelos
uma brisa morna
……………..

Fico cismando
de repente desperto
no cotidiano
……………..

Todo o velhaco
com gesto descuidado
se revela
……………..

O terrorismo
de Bush ou Binladen
qual deles é pior?
……………..

Toda a guerra
carrega nos braços
sangue inocente
……………..

Senti saudades
Por toda a minha vida
de quê nem sei
……………..

Apenas o vento
diz que vi outros mares
ele sempre mente
……………..

Sou pássaro
migratório de regresso
ao ninho antigo
……………..

Bem no fundo
da gaveta  das coisas velhas
o gosto de teus beijos
……………..

Lábios róseos
minha canção de espera
com teu perfume
……………..

O tempo derrama
na luz do crepúsculo
muitos olhares
……………..

Vento minuano
varre o frio da  tarde
ao sol poente
……………..

Um vaga-lume
acende seu lume na noite
e faz  poesia
……………..

Será que a lua
incendeia os amantes
na madrugada?
………………

As flores abrem
à espera de abelhas
que as fecundem
……………….

Sobre a idade
mentiu mentiste menti
sempre mentimos
……………….

O meu abrigo
é uma canção de ninar
que a mãe cantou
………………..

Habita em mim
um sonho antigo
de virar nuvem
……………….

A poeira do tempo
carregou a luz de teu olhar
ficou eco de passos
………………..

lugar perdido
nem mesmo em sonhos
podes visitar
…………………

O chamego das aves
tece casas com gravetos
música dos ninhos
…………………

Todas as certezas
são provisórias
o amor é eterno
…………………

O que é o amor
quando vamos amor
por que se ama?
…………………

Por que o vento
não varre para longe
as minhas tristezas?
…………………

Onde andará
o menino cheio de sonhos
acaso morreu?

José Luongo da Silveira

Laura, Láurea

Laura no teu corpo
o vento passa
e se disfarça,
finge que  agrada,
quando flutuas
qual bailarina,
que dança linda
num chão de estrelas.
Os meus olhos nos teus
não há distância,
quando sorris
é a canção dos ninhos,
o mundo se enleva
e o teu rosto revela
que habita  sonhos
do melhor do mundo.

És feliz por ser assim:
um pouco tímida,
os cabelos compridos,
de grinaldas enfeitados,
ao vento desgrenhados

Meiga, terma,
silenciosa e calma.
Poeta desde a infância.
Nasceu com a bruma de maio:
do céu que acariciava nuvens,
na paisagem de outono.

Basta uma palavra
e se desmancham
todas as mágoas.
No teu forte abraço
tenho a confiança
de que Deus existe.

Quando nasceste,
te acolhi nos braços,
e de repente
tu me olhaste
sentindo que sempre
nos conhecemos.

Laura, láurea,
prêmio, recompensa
vieste para vencer.
E tua alma inocente
já guarda segredos
no coração.
Ó meiga menina,
porque não ficas
sempre menina?

Feliz de mim
que te recebi,
herança boa,
precioso encanto
de minha alma rica.

José Luongo da Silveira

Lira quebrada

Perco-me na sonolência dos gestos,
no pensar que se pausa no passado.
O que sinto agora são vestígios,
fragmentos de um tempo que findou
e ao saber-me tão só e entristecido
talvez  meu coração se acorde
e mande mais uma vez aquele anseio
que só se faz quando o amor desperta.
 

Como posso perceber o mundo
se os meus olhos se turvam na distância
e não ouço mais a melodia de teus passos?
Até mesmo, os sabores e cheiros jazem
misturados no bolor das coisas velhas.
Meu Deus, o que há comigo,
por que não consigo sentir,
ao menos uma vez,
o arrebatamento das horas?

……………………..

Ó meiga musa, toma-me pela mão
e passo a passo vem caminhar comigo,
conduze-me aos teus átrios sagrados.
Não, não digas nada, nenhuma palavra,
ao menos por enquanto,
o segredo deste momento é permanecer calado
como convém àqueles que descobrem a eloqüência dos gestos,
quando as mãos acordam e se revestem de ternura.
Depois… depois de tudo terminado,
deixa-me ao menos adormecer no teu colo o meu cansaço,
como um pássaro que adormece ao ninho após a faina.

 
 
José Luongo da Silveira
Pai
onde quer que você esteja,
os seus pensamentos
precisam confortar esta noite.
 
Faz tempo …
e as lembranças emergem,
desbotadas,
consigo
o estofo dos sonhos.
 
E o tempo
este oceano,
engoliu os sonhos,
apagou as vozes,
turbilhão de espumas
na praia deserta.
 
Pai
embala esta noite
e conta histórias
para o menino dormir.

 
(No 20º aniversário de falecimento de Pedro Tomé da Silveira, 28/05/1989)

José Luongo da Silveira
Não há nada que eu queira mais do que te ver
e reavivar em mim a tua imagem desvanecida
enquanto a minha alma já se turva na distância
entre o que fomos e o que poderíamos ter sido.
 
 Não há nada que eu queira mais do que te ver,
sentir de novo a tua boca em brasa convertida,
o toque de teus lábios transformados em ânsia,
que inflamou de amor o coração que jaz partido.

Mas a vida não se demora nos dias passados,
por isso, se não vieres ao encontro prometido,
deixo agora de querer-te como sempre te quis.

Passo, então, a viver com o peito traspassado
e como a  ave que alça seu vôo mesmo ferida
ao teu lado não voltarei mais como sempre fiz.

 
 
José Luongo da Silveira

O primeiro amor

Quisera ver-me derramado numa canção
que andejante vem pairar eu teus ouvidos.
 
Quisera ser o amor, a compreensão
a inebriar-te a alma e o sentidos.
 
Quisera ser para ti todo amizade e doação,
mas como, se nem somos conhecidos?
e talvez entre nós não haja um leve aperto de mão
que testemunhe um dia esses pedidos.
 
Contudo, somos iguais, somos irmãos,
do mesmo ser somos possuídos,
que irmanando nos vão na criação
e nos fazem na distância unidos.
 
 
José Luongo da Silveira
Caminha comigo lado a lado sem dizer nada,
as palavras quase sempre é o que atrapalham
quando queremos exprimir as nossas mágoas,
soltar o grito que preso se guarda na garganta.
 

Dentro de mim há uma dor que se agiganta,
se penso no que poderia ter sido e que não foi
e quando tento entender a mão de Deus agindo
como um cinzel que firme traça a nossa sina.

Calado e atento como convém a um bom amigo
deixa que o teu silêncio  reconforte-me a alma
e traduza as palavras que em minha mente aflora.

Caminha comigo lado a lado sem dizer nada
ouve tão somente o desabafo de minha alma.
Vês? Tua presença já me faz mais calmo agora.

 
José Luongo da Silveira

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